domingo, 19 de outubro de 2014

Construção social da identidade adolescente/ juvenil e suas marcas de gênero

CURSO GÊNERO E DIVERSIDADE NA ESCOLA
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Se o gênero é socialmente construído por nós no cotidiano da família, da escola, da rua,
na mídia, então parte-se do pressuposto de que essas convenções sociais podem ser
transformadas, ou seja, discutidas, criticadas, questionadas, modificadas em busca da
eqüidade social entre homens e mulheres, do ponto de vista do acesso a direitos sociais,
políticos e civis. Educadores e educadoras têm a possibilidade de reforçar preconceitos e
estereótipos de gênero, caso tenham uma atuação pouco reflexiva sobre as classificações
morais existentes entre atributos masculinos e femininos e se não estiverem atentos
aos estereótipos e aos preconceitos de gênero presentes no ambiente escolar. Qual a
responsabilidade da escola e dos educadores e educadoras na
garantia do direito de cada pessoa de ter uma justa imagem
de si e de ser tratado com dignidade? Como educar meninos
e meninas para a igualdade de direitos e oportunidades?
As noções aprendidas na infância do que é considerado
pertinente ao feminino e ao masculino acirram-se e
consolidam-se na adolescência. A sociabilidade infantil
permite ainda certa convivência de meninos e meninas
em diferentes atividades coletivas. Já na adolescência, o fato de haver o aprendizado da
aproximação ao sexo oposto, mediado por diferentes formas de relacionamento afetivosexual
(olhar, paquera, ficar, namoro), torna os domínios masculinos e femininos mais
nítidos, com limites bem definidos entre si.
No que diz respeito à questão de gênero, há todo um
conjunto de atitudes, posturas e modos de agir social e
diferencialmente recomendados aos rapazes e às moças que
ensaiam a entrada na sexualidade. Mesmo que a virgindade
não signifique mais o que foi em outras épocas, e que haja
uma relativa aceitação social em ter relações sexuais antes
do casamento – variável conforme os costumes e os valores
locais – ainda assim exige-se da moça:
Este texto fala das especificidades da fase adolescente/juvenil para a construção
social da identidade, no que tange às questões de gênero. Que fatores você acha que
podem estar em jogo nessa fase? Procure antecipá-los antes de começar a leitura.
MÓDULO 2 - GÊNERO | unidade 1 | TEXTO 4
Construção social da identidade adolescente/
juvenil e suas marcas de gênero

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• Que se guarde o máximo possível, retardando a iniciação sexual;
• Que seu leque de experimentação sexual seja reduzido, não chegue próximo ao dos
homens, para não serem chamadas de “galinhas”;
• Que não seja “atirada”, embora a mídia ressalte a sensualidade dos corpos femininos;
• Que tenha o casamento e a maternidade como horizonte próximo.
Por outro lado, do rapaz exige-se:
• Que antecipe o máximo possível a primeira experiência sexual;
• O prazer de reunir múltiplas experiências sexuais, às vezes simultâneas;
• Um apetite sexual intenso como prova de sua virilidade, estimulada desde pequeno por
homens próximos a ele quando apontam o corpo de mulheres na TV ou nas ruas;
• Certo desprezo pelo cultivo dos sentimentos amorosos.
Esses modelos de comportamento sexual e social podem se
tornar verdadeiras prisões ou fontes de agudo sofrimento
quando os rapazes e as moças não se encaixam nos
estereótipos de gênero previamente designados. Qualquer
inadaptação ou desvio de conduta corre o risco de ser
duramente criticada/o ou discriminada/o socialmente: elas
podem se tornar “putas” e “galinhas” (em razão de uma
vida sexual ativa), ou “sapatões”, “machonas” ou “freiras”
(como categoria de acusação em alusão à castidade para
as que se recusam a aderir à prática sexual por imposição
do parceiro); e eles, “bichas”, “veados”, “mulherzinha”,
“maricas”. Em suma, há modelos de gênero rigidamente
estabelecidos que inspiram representações e práticas sociais
para jovens de cada sexo.
Além da vivência da sexualidade, há outro domínio em que se
percebe a incisiva influência do gênero na construção social
da identidade juvenil: o ingresso no mercado de trabalho ou a
escolha da carreira profissional. Tanto para aqueles/as jovens
que se vêem forçados/as a entrar precocemente no mercado
de trabalho em razão da precariedade socioeconômica de
suas famílias, quanto para os/as que podem permanecer na escola por mais tempo, na
edificação de uma carreira profissional, a oferta de postos de trabalho e de profissões leva
em conta aptidões tidas como “naturais” aos homens e às mulheres.
Retomamos aqui o tema da divisão sexual do trabalho. Esta temática, muito estudada pela
sociologia do trabalho, é anterior à ampla difusão do termo gênero, mas o sentido de suas
análises converge para o mesmo ponto: as escolhas e as oportunidades profissionais não
são ditadas por determinações “naturais” ou biológicas. Entre jovens de pouca escolaridade,
Dica de filme: Julieta e Romeu
(Brasil, Ecos, 1995, 17 min) – De uma
maneira descontraída e divertida,
as fantasias, as dúvidas, os erros
e os acertos da iniciação sexual na
adolescência são mostrados através
do namoro de Julieta e Romeu.

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cabe aos rapazes serem entregadores, office-boys, motoboys, operários da construção
civil ou da indústria, trabalhadores no transporte de cargas, motoristas, trabalhadores
rurais, vendedores ambulantes, seguir carreira policial ou militar. Em geral, as moças
nas mesmas condições, orientam-se para ser secretárias, copeiras, auxiliares de serviços
gerais, ajudantes de cozinha, recepcionistas, empregadas domésticas, babás, faxineiras,
comerciárias, operadoras de caixa ou de telemarketing. Mesmo entre jovens que conseguem
cursar a universidade, é freqüente haver uma adesão maciça
das mulheres às carreiras existentes nas ciências sociais
(enfermagem, terapia ocupacional, fonoaudiologia, nutrição)
ou humanas (psicologia, educação, letras, serviço social,
história, artes etc.). Essas profissões são tradicionalmente
voltadas para o ensino e o cuidado do outro, atributos tidos
como femininos.
Já se nota atualmente uma forte presença das mulheres
em cursos como direito, medicina, odontologia, arquitetura,
comunicação, tradicionalmente redutos de prestígio
masculino. Ainda assim, as escolhas dos homens continuam
a ser orientadas para as ciências básicas (física, química,
biologia), para as engenharias, a economia, as informáticas,
a administração de empresas, o mercado externo (comércio
exterior, relações internacionais), dentre outras áreas tidas pelo senso comum como as
mais propensas aos homens. Mesmo em contextos de reconhecida presença de ambos os
sexos, por exemplo, uma agência bancária, observe como estão distribuídos os funcionários
homens e mulheres nas diferentes seções da agência, desde a segurança e o serviço de
café até a presidência do banco.
As escolhas feitas na adolescência serão, portanto, decisivas para a construção da trajetória
biográfica de rapazes e moças, ou seja, cada profissão lhes reservará um aprendizado
específico das regras de gênero, pois a convivência com seus pares no campo profissional
sofrerá a interferência da lógica de gênero, desde a distribuição entre postos e turnos de
trabalho até as formas de ascensão e remuneração.
A construção da identidade juvenil também se faz por meio do aprendizado entre pares, nas
diferentes formas de sociabilidade e lazer desfrutadas por jovens. Entre jogos, brincadeiras,
galeras, músicas, ritmos e danças, festas (rodeios, quermesses), práticas esportivas,
tecnologias de informação (celulares, internet, comunidades virtuais), idas a shopping
centers, adesão a determinado tipo de lazer (pesca, artesanato, bordados), enfatizam-se
imagens, perfis, destrezas típicas de cada gênero.
A indumentária também é importante para a construção da identidade de gênero. O modo
como cada jovem – homem ou mulher – se apresenta em bailes, festas, espetáculos
musicais, rodeios informa não só sobre seu pertencimento social, mas também de gênero e

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raça. Em determinados contextos é comum o uso de bonés
e trajes largos para os rapazes, roupas mais aderentes para
as moças, comumente de salto alto, distinguindo estilos
diferenciados para cada gênero. A pressão que o grupo
de pares exerce sobre seus participantes é tamanha na
repetição destes estilos que se torna difícil arriscar novos
modelos, inovar em práticas sociais que não estejam
consagradas pelo grupo.
A sociologia tem estudado as denominadas “tribos urbanas”
enquanto rede de amizades adolescente e juvenil que
compartilham modo de se vestir, linguagem, músicas e outros
gostos. Seja para impressionar colegas do mesmo gênero
ou do gênero oposto, a aceitação dos valores de gênero
difundidos nas mais variadas situações de sociabilidade
juvenil exerce considerável influência na conformação da
identidade juvenil de homens e mulheres.
A “Emo” (abreviação do inglês
emotional) é uma destas tribos,
que se originou do estilo musical
derivado do punk; chegou ao Brasil,
na cidade de São Paulo, por volta
de 2003 e vem ganhando adeptos
em outros estados. Os chamados
“emos” têm geralmente entre 12 e
20 anos, usam munhequeira, franja
caída no rosto, piercing na boca,
colar de bolinhas ou dadinhos,
gravatinha, tênis Adidas, roupas
pretas, mistura de delicados lacinhos
no cabelo com as ousadas meias
“arrastão”. É possível que você já
tenha visto ou conheça algum/a
adolescente ou jovem que se veste
assim. Eles se autodefinem como
carinhosos, sensíveis, pessoas calmas
que não gostam de briga e querem
apenas amar e serem amados. Em
comunidades de relacionamento pela
internet, encontram-se depoimentos
dos/as “emos” falando sobre os
preconceitos sofridos em razão do
estilo de roupas que adotam e dos
sentimentos que defendem. Se você
quiser saber mais sobre “Emo”, veja
um vídeo em www.youtube.com/

watch?v=tYNC6zF49OI (5 min.).

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